Romulo Fróes, Thiago França e Rodrigo Campos nublam o tempo do samba no passo torto do álbum '03 na ribanceira'
Romulo Fróes (de camisa azul), Rodrigo Campos (de boné) e Thiago França se afinam no passo torto do álbum '03 na ribanceira' Frederico Pacheco / Divulgaçã...
Romulo Fróes (de camisa azul), Rodrigo Campos (de boné) e Thiago França se afinam no passo torto do álbum '03 na ribanceira' Frederico Pacheco / Divulgação / Montagem g1 ♫ CRÍTICA DE ÁLBUM Título: “03 na ribanceira” Artistas: Rodrigo Campos, Romulo Fróes e Thiago França Cotação: ★ ★ ★ ★ ♬ Álbum que junta Rodrigo Campos, Romulo Fróes e Thiago França, “03 na ribanceira” é em essência um disco de samba, mas um samba de tempo nublado. É a cadência desse samba que dita o ritmo de mais um acertado passo torto do trio formado por esses três expoentes da cena indie paulistana. No mundo desde 29 de outubro, com capa que expõe pintura de Romulo Fro álbum “03 na ribanceira” flagra os três artistas na “Roda viva perdida querendo encontrar / Saída”, como explicitam os versos do samba “Saída” (Rodrigo Campos e Romulo Fróes). A propósito, a alta qualidade poética dos versos de sete das nove músicas – duas são temas instrumentais – salta aos ouvidos. A letra de “Bodiado” (Romulo Fróes, Thiago França e Clima), por exemplo, resiste como poema sem a música, feita na forma de samba angustiado, cinzento, com ecos de Chico Buarque. O canto áspero e opaco de Romulo Fróes potencializa o desassossegado estado d'alma da maior parte do repertório. Contudo, há luzes no fim do túnel existencial. O eu-lírico de “O nosso jogo de azar” (Romulo Fróes e Thiago França) ensaia movimento de virada em sintonia com o arranjo da faixa que persegue a cadência bonita do samba, construída com as percussões (banjo, tantã, repique de mão, agogô e reco-reco) manuseadas por Rodrigo Campos enquanto o cavaquinho fica a cargo de Thiago França, habitualmente no sopro dissonante do saxofone, cuja fricção com a guitarra de Campos dá o tom meio noise do tema instrumental “Chapéu lilás” (Rodrigo Campos e Thiago França). Com arsenal percussivo similar ao da faixa “O nosso jogo de azar”, Rodrigo Campos põe o bloco na rua com “Mamoso” (Rodrigo Campos), tema instrumental que esboça clima folião no compasso do samba-choro. Contudo, o tempo ruim não dá trégua existencial. “Choveu dentro de mim”, avisa a voz de Romulo Fróes no canto de “Corpo e capim” (Romulo Fróes e Thiago França). Se um dia foi real, a felicidade ficou no passado. “Tudo que é meu e não deu e não foi e ficou pra trás / Outras cidades saudades de quem eu nem sei quem será / Novas senis novidades e outras desordens no ar”, dizem os versos finais de “Mora na memória” (Thiago França e Clima), música cujo canto é dividido por Romulo com Clima e com Juliana Perdigão. E por falar em fim, aparece no arremate de “03 na ribanceira” a obra-prima do álbum iniciado com “Um dois três você” (Rodrigo Campos e Romulo Fróes). No inebriante curso de “Um rio sem rio” (Romulo Fróes e Thiago França), grande samba-canção ouvido nas vozes de Verônica Ferriani (cantora maravilhosa que merecia maior reconhecimento) e Romulo Fróes, o vazio existencial se instalou por completo, a festa da vida já acabou e a luz já se apagou. Mas, por uma fresta, perpassa o brilho intenso da criação de Rodrigo Campos, Romulo Fróes e Thiago França no salto no escuro dado pelo trio ao longo do álbum “03 na ribanceira”. Capa do álbum '03 na ribanceira', de Rodrigo Campos, Romulo Fróes e Thiago França Pintura de Romulo Fróes